Archive for 11 de setembro de 2008

No meio da ciclovia, um fotógrafo

11 setembro, 2008

Numa dessas saídas que a gente já espera que a pauta caia, conheci uma figura cheia de histórias para contar. Era uma matéria para criticar as ciclovias, no entanto os raros ciclistas que encontrei amavam as faixas para bicicletas. Um deles era Ayrton de Magalhães. Durante uma entrevista breve, ele comentou que trabalhara com Samuel Wainer e nos bastidores do filme Pixote e do Beijo da Mulher Aranha.

Pronto, a pulguinha estava plantada atrás da orelha. Peguei o contato dele e curiosa e desconfiada do jeito que sou, cheguei ao jornal e corri para o Google! E não é que ele realmente era quem ele disse ser?

Marquei com Ayrton uma entrevista. E abaixo está o resultado. O espaço do jornal é limitado, e acredito que o tempo dos leitores do blog também. Por isso nem todas as histórias dele estão aí:

Muitos conhecem o retrato da atriz Marília Pera amamentando Fernando Ramos da Silva, o Pixote. Mas poucos sabem que o autor da imagem é Ayrton de Magalhães, 54 anos, que fez fama como fotógrafo still ou de cena- aquele que fotografa produções cinematográficas.

Ele também registrou pela primeira vez o submundo dos travestis de São Paulo, em 1976 e cenas do filme “O Beijo da Mulher Aranha”, protagonizado pela atriz Sônia Braga. Depois de voltas e reviravoltas, Ayrton está morando em Florianópolis. As histórias deste fotógrafo parecem formar um verdadeiro filme na cabeça dele, revelado exatamente na seqüência em que tudo aconteceu.

Aos 14 anos ele caiu na estrada, deixou sua cidade natal, São Paulo (SP), e embarcou numa aventura para Salvador (BA). De lá, seguiu para Ouro Preto (MG), onde aprendeu o artesanato em couro. Eram bolsas com aplicações de metal, que logo fizeram sucesso.

Veio para Santa Catarina, onde conheceu o poeta catarinense Lindolfo Bell, que se encantou com o trabalho de Ayrton e organizou exposições com as peças. Como ia muito a Blumenau, o artesão conheceu a rotina de uma redação, num jornal da cidade, e resolveu virar fotógrafo.

A decisão foi repentina, mas tudo indica que acertada. O reconhecimento do trabalho veio de pessoas como o cineasta Hector Babenco e o jornalista Samuel Wainer.

Ayrton começou o ofício em Florianópolis, em 1971, como fotógrafo do governador do Estado, Colombo Salles. Aos 19 anos, embarcou numa viagem pela América Latina, e fotografou países como Guatemala, Equador e México. Registrou cenas da última tribo Maia, que foram parar numa exposição em Paris a convite de Boris Kossoy, fotógrafo influente.

Na volta ao Brasil, dedicou-se um ano às fotografias do submundo dos travestis de São Paulo. Quando concluiu, foi chamado para trabalhar no jornal Última Hora de Samuel Wainer, que não gostou muito da idéia.

– Ele achava que eu era fotógrafo artista e não de jornalismo – explica.

Wainer estava enganado e ficou com Ayrton até o fechamento do jornal. Quando isso aconteceu, Babenco convidou o fotógrafo para retratar os sets do filme “Pixote – A lei do mais fraco”. Ayrton conta que clicou mais de mil garotos até chegar ao escolhido e revela que tudo com Babenco era assim.

_ Fazíamos centenas de fotos de uma mesma cena, mas para ele ainda era pouco. No Beijo da Mulher Aranha fiz umas 700 fotos de Sônia Braga e ele perguntou para mim se era só aquilo!

Ayrton ainda trabalhou como fotógrafa da editoria de polícia de um jornal dirigido por Amado Ribeiro, personagem do livro “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues.

– Ele era um grande inventor de notícias!

No entanto, a vida prega peças, e com Ayrton não foi diferente. Em 1993, o pai sofreu um acidente, e cinco anos mais tarde, o tio também. O fotógrafo relata que abandonou tudo para cuidar dos dois, que faleceram 10 anos depois.

– Durante esse tempo não fiz mais nada e meu dinheiro foi embora.

Com a morte dos dois, Ayrton mudou-se para o subúrbio de Diadema (SP), fazia vídeos e fotografava de casamento e batizados. Porém, os gastos eram maiores que o lucro.

Foi quando resolveu se mudar para Florianópolis, cidade que sua filha única escolheu para morar. Na capital catarinense, Ayrton foi telefonista, frentista e chapeiro de uma barraquinha de cachorro-quente. Seu desejo é voltar a fotografar e trabalhar com documentários. Ele também pretende cursar Sociologia.

No momento, Ayrton está desempregado e suas fotos, na história.”

Foto: Diego Redel

Obs: A barraquinha de cachorro-quente é aquela em frente ao Pida
Obs2: Imagens cedidas por Ayrton

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