Archive for agosto \29\UTC 2008

Atolados numa fria

29 agosto, 2008

Antes deste surto trágico de pingüins oleosos, uma repórter não queria nem saber de ouvir falar dessas aves simpáticas. É que além de algumas pessoas ligarem para sugerirem pauta sobre ração de cachorro (sim, isso já aconteceu), outras mentem.

Há um tempo, recebemos uma ligação de uma pessoa, avisando que havia uns cem pingüins mortos numa praia isolada do norte.  Arma-se a equipe  – fotógrafo, repórter e motorista – que corre para o local indicado.

Chegando lá, jazia um pobre pingüim e nem mais uma alma morta, e muito menos viva. Como se não bastasse, o carro atolou na areia e para retirar só com o guincho, claro. Mas quem disse que o guincho foi?

– Ih, nóis não vai prali não. Lá, até a gente atola.

Pois é, os pingüins saem do frio da Patagônia, para colocar repórteres daqui numa fria.

Foto: Daniel Conzi

Anúncios

Viver sem fronteiras…

21 agosto, 2008

… é isso aqui:

Entrevistando uma mulher, percebi que o sotaque dela não era daqui. Ela é portuguesa, mas mora com a família no Brasil há dois anos. Conversa vai, conversa vem, ela comentou que o marido é francês. Ao ver a filha dos dois, não resisti e perguntei de onde a garota era.

– Ah, ela é alemã.

E viva a globalização!

Surpresa Rara II – O Desfecho

18 agosto, 2008

Para dar um retorno sobre o destino do peixe…

Ele será encaminhado ao Museu de Oceanografia da Univali, em Itajaí.

Abaixo o email que recebi do oceanógrafo José Nestor Cardoso e parte de um release que chegou ao jornal:

“O peixe foi para a coleção do Museu da Univali, aos cuidados do Jules Soto que foi quem primeiro descreveu o peixe para a região.

Ele ficou muito contente pois sua observação havia sido durante um mergulho e ele não tinha provas físicas, o que levantou muitas críticas e ceticismo.

Agora com este exemplar ele tem a comprovação de sua observação anterior. Deveremos escrever um artigo em conjunto para publicação.

Além disto ele deverá colher material para análise de DNA para comparação com outros exemplares de outros pontos do globo.

Qualquer novidade te manterei informada. Também já informei nosso amigo Zé Lima da USP e ele ficou muito satisfeito com o desfecho. Lógico que ele adoraria o exemplar na coleção da USP. Na verdade até acho que teria mais visibilidade e acesso para outros pesquisadores, mas de qualquer maneira está bem encaminhado.

Abraço e mais uma vez obrigado.
Nestor”

Agora um trecho do release:

“A notícia chamou a atenção de pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali),  que avaliaram o material e foram categóricos: ‘Trata-se de um juvenil de peixe-remo, o maior de todos os peixes ósseos e é conhecido cientificamente como Regalecus glesne‘.

A identificação foi feita por Jules Soto, curador do Museu Oceanográfico da Univali. Na ocasião ele foi até a localidade em que o animal foi capturado e confirmou a importância do achado. Jules é o responsável pelo o único registro da espécie em toda a América do Sul realizada em janeiro de 1988.

‘Há 20 anos, observamos um exemplar com cinco metros nas proximidades da Ilha das Galés, incluindo-o para a lista de peixes do Brasil. Agora, a espécie voltou a ser vista, com um exemplar capturado, a poucos quilômetros do primeiro registro’, comemora.

Jules disse ainda que o peixe capturado trata-se do único preservado desta espécie em toda a América do Sul e integrará o acervo do Museu Oceanográfico Univali.”

Foto: Susi Padilha - Carlinhos, o pai Manoel e o irmão Cláudio

Surpresa Rara

15 agosto, 2008

Fui fazer uma matéria de um pescador que pegou um peixe de 1,70 m. Saí do jornal achando que ia encontrar um desses peixes gorduchos, grandões, com nadadeiras.
Quando me deparei com aquele peixe comprido e finééérrimo não sei nem se fiquei decepcionada ou admirada. Só me dava impressão que o peixe iria rasgar a qualquer momento. Nenhum dos pescadores sabia dizer que raio de peixe era aquele, mas uma coisa estava certa, ele iria para a panela.
Quando cheguei ao jornal, sabia que precisava ir atrás de alguém pra me dizer, afinal, que espécie era… Mas quis escrever a matéria primeiro, só que quando escrevi que o peixe iria para a panela, me deu um arrepio. Eu precisava descobrir imediatamente que peixe ele era! Imagina se pudesse ser alguma espécie rara? Eles iriam comer!!!
Liguei urgente pra um oceanógrafo que eu entrevistara na véspera para uma matéria sobre guarda-compartilhada! E não é que ele me deu o caminho para descobrir a espécie e no final, o peixe era realmente uma raridade? Assim que soube, liguei pro pescador. Por sorte, o peixe ainda estava intacto!

Abaixo a matéria, e depois um email que recebi do oceanógrafo:

Um apelidou de ‘peixe-camarão’. A maioria preferiu não arriscar um palpite. Nem o mais experiente dos pescadores, entre os que ali estavam, vira um peixe como aquele. E o que mais intrigou: a conversa de pescador era verdadeira. O animal estava ali e ninguém sabia dizer a sua espécie.

O peixe prateado de 1,70 metros e 22 centímetros de largura era fino como um papel e parecia que iria rasgar. Ele também não tinha nadadeiras. A novidade agitou o remanso da baía da Praia de Fora, na Palhoça, na Grande Florianópolis, na manhã de ontem.

Por volta das 7h30min, o pescador Carlos Alberto da Silveira, 50 anos, fora avisado por um amigo que um peixe muito estranho nadava a cerca de uns 30 metros da praia. Acostumado a pescar desde os 8 anos, ele não pensou duas vezes, pegou a tarrafa e correu para o mar. Foi fácil, Carlinhos admite. O animal não reagiu e caiu na rede.

Carlinhos não podia esperar surpresa mais bonita naquela manhã.

– Quando vi, me deparei com esse peixe lindão e maravilhoso!

O difícil foi saber que peixe exatamente era aquele. Manoel da Silveira, 72 anos, pai de Carlinhos e pescador desde os 12, contou que nunca vira um assim. Já pegou de tudo, já foi para alto-mar, mas aquele ali era novidade.

O irmão de Carlos, Cláudio, e os amigos também foram conferir. Definitivamente, o peixe não é da redondeza. Eles contam que já pegaram outros peixes grandes, como uma pescada-amarela, de 1,20 metros e que pesava 18 quilos. Para ninguém duvidar, o feito foi retratado e ganhou até moldura, que fica no bar de Carlos, à beira-mar.

Carlinhos, o pai e os amigos acreditam que provavelmente o peixe misterioso tenha se perdido numa corrente ou então, fora levado à baía por algum predador. Ele afirmou que o animal é parecido com um espada.

_ Mas a boca é totalmente diferente, ele tem essas espécies de barbatanas e isso, que parece uma antena na cabeça _ observou Carlinhos.

Os olhos esbugalhados são outro indício de que a novidade veio de longe.

_ Esse olho é de peixe de água profunda.

Foi preciso consultar um especialista no assunto para desvendar o mistério. O biólogo e professor da Universidade de São Paulo, José Lima de Figueiredo, informou que o animal encontrado é da família Regalecidae. Ele desconhece um nome popular.

Lima acredita que tenha sido o primeiro peixe da espécie capturado na região e até mesmo no Brasil. Outros já foram vistos, mas não pescados. Lima ainda disse que esse é o mais longo dos peixes ósseos, podendo chegar a 8 metros de comprimento. Eles podem ser encontrados em todos os oceanos, longe da costa.

Pelo tamanho e formato, teria sido essa espécie que deu origem às lendas das serpentes marinhas gigantes.

O destino inicial, que seria a panela, parece que será o museu. Lima recomendou que ele fosse conservado.

_ Seria muito importante para uma universidade ter essa espécie.”

A história teve um final feliz:

“OI Júlia
Falei com o Carlos Alberto e ele vai conservar o peixe para mim. Devo ir buscar até o final de semana.
Obrigado…com certeza tiveste uma contribuição muito importante para a oceanografia.
Abraço
Nestor”

Foto: Susi Padilha - O pescador Carlos Alberto com seu peixe misterioso

Dá pena

8 agosto, 2008

A Lei Maria da Penha completou dois anos ontem. Alegria ( e salvação) pra umas, tristeza pra outros.

O repórter esperava o motorista na frente do Tribunal de Justiça, quando um homem foi falar com ele:

– O senhor é da imprensa, né? Moço do céu, não sei mais o que faço com essa Lei Maria da Penha. Desde que ela entrou em vigor minha mulher não pára de me bater! E eu não posso fazer absolutamente nada. Tô até aqui com os boletins de ocorrência. Pode olhar!

Repórter analisando os B.Os e…

– O quê??  Ela te mordeu?? O quêêê? Bateu com um ferro no senhor?? Jogou uma cadeira em ti?? É, não deve tá fácil mesmo!

Dirceu é pop

4 agosto, 2008

Fui cobrir uma manifestação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na sede do Incra. Nem preciso dizer que me senti na novela Rei do Gado e só faltou Zé Ramalho ao fundo, cantando Admirável Gado Novo.

Procurava alguém para me falar sobre as reivindicações do movimento. Me indicaram Dirceu.

– Aquele que tá com o moço da TV lá embaixo.

Fui atrás dele. E não é que Dirceu falava a uma TV local sobre o seu livro de poesias recém-lançado: “Poesia, Resistência e Utopia” – Editora Expressão Popular.

Enquanto aguardava o final da entrevista, comentei com um senhor do meu lado que queria falar com Dirceu. Ele virou bem sério pra mim e disse cheio de admiração:

– Olha, com esse aí vale a pena! Ô se vale!